Capa do livro “Jeito de ser, jeito de morar”

“Duas casas foram construídas por Waldemar e Dolores Alcântara e lhes serviram de moradia em diferentes momentos da vida: a primeira, na avenida Bezerra de Menezes, 549, bairro Alagadiço; a segunda, na rua Júlia Vasconcelos, 100, bairro Pio XII.”

A trajetória entre essas duas casas, a amizade com o Arquiteto Neudson Braga, o amor pela Arquitetura e a vibrante vida da família Alcântara, são os motes do livro “Jeito de Ser, Jeito de Morar”, editado em 2011 pela Fundação Waldemar Alcântara, e que teve a organização e edição de Lília Maria de Alcântara e França; coordenação da pesquisa, levantamento de dados e entrevistas de Maria Daniela Alcântara que orientou a então aluna de arquitetura da Unifor Priscilla Távora Ximenes.

Casa Avenida Bezerra de Menezes, 549, e casa da Rua Júlia Vasconcelos, 100

O livro resgata a história dessas casas, mas não só isso; é uma nova forma de entender a sociabilidade de uma residência, tudo isso em consonância com o momento histórico.

Isso porque, Waldemar e Dolores Alcântara, decidiram sair, em 1977, de uma casa com muitos cômodos (quartos, pátio, ampla sala), em um bairro muito popular, para uma casa nova, construída com bases modernistas, com apenas dois quartos, ampla sala e uma varanda, com uma parte abrigada e outra totalmente aberta, em um bairro mais distante, destoando da migração que ocorria na época para o Bairro Aldeota.

“Das coisas que não deixamos pelo caminho
entre uma casa e outra, vale a penalembrar
o cheiro do jasmim. Como no pátio da
Bezerra de Menezes, um frondoso
jasmineiro perfumava as noites
na varanda da nova casa.”

Trecho do Livro – Jeito de Ser, Jeito de Morar

Essa transformação no novo “jeito de morar” foi resultado das influências de um tempo de grandes mudanças. As décadas de 50, 60 e 70 foram de muitas revoluções: a popularização da televisão; a inauguração da TV Tupi; o primeiro transplante de órgão; o surgimento do rock’n’roll nos Estados Unidos; a chegada do homem à lua; a transferência da capital do Brasil do Rio de Janeiro para Brasília.

Notadamente influenciados por essa efervescência cultural, a família Alcântara decide construir uma nova casa. Sobre a definição do projeto, Lúcio Alcântara comenta: “Minha mãe teve forte influência. Ela queria uma casa de poucos quartos e muita sala. Uma das coisas mais valorizadas por ela era a simetria. Gostava das coisas aos pares, rigorosamente simétricas. Queria espaços amplos, condição que o projeto atendeu plenamente, na forma de um complexo de ambientes (varanda, estar e jantar) visualmente integrados.”

Após mais de duas décadas morando na casa da avenida Bezerra de Menezes, projetada pelo Arquiteto José Barros Maia, o Mainha, e reformada, alguns anos depois, pelo Arquiteto Neudson Braga, a família mudou-se para o bairro Pio XII, escolha complexa, visto que foi necessário fazer a junção de vários pequenos lotes, cada um com sua casinha e seu proprietário.

“Para mim, a casa do Dr. Waldemar é exemplar porque tem a proposta da casa livre. Eu queria que essa casa fosse o mais livre possível: fechar apenas o que era preciso – a parte íntima da casa –, enquanto todo o resto poderia ser completamente fluido. Era isso que eu tentava e foi o que eu consegui.”

Arquiteto Neudson Braga

A escolha de Neudson Braga, para a construção da nova casa, foi o resultado da relação de confiança mútua entre a família e o Arquiteto, estabelecendo uma amizade que ficou imortalizada na casa que hoje abriga a Fundação Waldemar Alcântara e é um ícone da arquitetura do Ceará.

O zelo pela casa é tamanho que nem “as fechaduras, que já apresentam problemas” Lúcio Alcântara admite substituir, segundo Lúcia Alcântara, sua irmã.

Ambiente de estar e jantar, com mobiliário e acessórios, família reunida na varanda externa e vista do pergolado que acompanha longitudinalmente toda a extensão da casa

Há muito mais a ser vivido lendo o livro; uma viagem no tempo, nos costumes e valores de uma família que soube, como poucas, valorizar as pessoas, os profissionais e as profícuas mudanças. “Jeito de Ser, Jeito de Morar” detalha os projetos das casas, com imagens das plantas, fotos dos ambientes e depoimentos dos filhos do casal, dos próprios Arquitetos e de estudiosos e mostra o amor de Waldemar e Dolores Alcântara pela Arquitetura.

Novos olhares!

Os alunos Marina Gomes e João Victor Pinto, alunos com Silvia Furtado e alunos com Lúcio Alcântara

Em 2022, a casa, da Rua R. Júlia Vasconcelos, 100, símbolo da arquitetura modernista, e onde hoje se encontra a Fundação Waldemar Alcântara, continua a despertar interesses. Marina Gomes e João Victor Pinto, ambos alunos da disciplina História da Arquitetura e do Urbanismo (Brasil II), ministrada pela professora Margarida Júlia Andrade, estiveram, dia 2 de fevereiro, na FWA. Guiados na visita pela Secretária Executiva da fundação, Silvia Furtado, os alunos puderam conhecer, sob ótica viva da história, a representativa arquitetura de Neudson Braga, responsável pelo projeto.

Sobre a importância da casa, Margarida Júlia, destaca: “A casa de Waldemar Alcântara, hoje sede da Fundação, é uma obra representativa da produção arquitetônica residencial cearense e a experiência de estar no espaço pensado e construído por um dos grandes arquitetos cearenses, Neudson Braga, analisando detalhes baseados nas categorias estudadas na disciplina é enriquecedor”.

Ao final da visita, os estudantes receberam, das mãos de Lúcio Alcântara, exemplares do livro “Jeito de ser, jeito de morar”.

O livro já está disponível para leitura. Clique aqui e faça o download.