O poeta, cronista, jornalista, historiador e abolicionista convicto faleceu no dia 28 de agosto de 1921.
Em homenagem, a Fundação Waldemar Alcântara lembra a vida do escritor, e seu legado para história do Ceará.

Antônio Bezerra de Menezes nasceu em Quixeramobim, em 21 de fevereiro de 1841. Filho de proeminente advogado e político da província, Dr. Manuel Soares da Silva Bezerra e de Dona Maria Tereza de Albuquerque Bezerra. Quando ainda muito jovem, a família muda-se para Fortaleza, e Antônio Bezerra inicia os estudos no Liceu. Depois segue para São Paulo a fim de cursar ciências jurídicas na Faculdade de Direito do Largo do São Francisco, mas desiste de seguir a mesma carreira do pai retornando à capital cearense, na década de 1870. A partir dos anos 1880, começa o período de maior atividade intelectual de Antônio Bezerra, até seu falecimento, em 28 de agosto de 1921, aos 80 anos, em Fortaleza, encerrando assim uma trajetória incisiva como historiador, popular como poeta e jornalista e engajado como membro de várias agremiações culturais.

Nesse sábado, 28 de agosto de 2021, completam-se 100 anos da morte de Antônio Bezerra e a Fundação Waldemar Alcântara (FWA), instituição que trabalha na promoção da memória histórica e bibliográfica do Ceará, rende homenagem a esse atuante intelectual e também autor dos livros: O Ceará e os cearenses e Algumas origens do Ceará, publicados em versão fac-símile pela Fundação, em 2001 e 2009, respectivamente, e agora disponíveis para download no novo site da FWA. Clique nas imagens abaixo para ter acesso a essas duas obras da Biblioteca Básica Cearense.

         


Trajetória de Antônio Bezerra

Antônio Bezerra de Menezes, quando em vida, não foi um homem só, foi muitos se considerarmos a atuação intelectual nos círculos letrados da capital da província, a variedade de ramos do conhecimento que se debruçou tendo como objeto de estudo o Ceará, e seu legado literário. Ele escreveu sobre a história do Ceará, garimpando documentos oficiais, desvendando e elucidando os marcos de origem; foi voluntário da pátria na Guerra do Paraguai, alistando-se no exército; participou incisivamente como defensor da abolição na província na década de 1880; escreveu em quase todos os jornais que circulavam em Fortaleza, no final do século XIX; foi um dos fundadores da Academia Cearense de Letras e patrono da cadeira número 4; fundou, com outros intelectuais contemporâneos, o Instituto do Ceará e o Centro Literário. Participou de viagens de cunho exploratório para o interior da província, a mando do governo. E foi o primeiro presidente da Sociedade de Sciencias Praticas. A lista de feitos de Antônio Bezerra não se esgota aqui.

Segundo Almir Leal, professor do Departamento de História da Universidade Federal do Ceará (UFC), a atuação de Bezerra extrapola as fronteiras do Ceará. “Ao mudar-se para Manaus, em 1896 – uma passagem muito especial da vida dele, e pouco explorada, foi quando torna-se responsável pela direção do Museu de História Natural de Manaus, contribuindo para a organização do acervo criado pelo famoso naturalista Veloso, fundador do Museu. Nesse período Antônio Bezerra realiza um importante trabalho de base no museu de Manaus”, destaca. Foi nessa época que Antônio Bezerra começa a escrever artigos no Jornal A Pátria para imigrantes cearenses na Amazônia. A junção desses textos afetivos sobre a terra natal e sobre os conterrâneos origina o livro O Ceará e os Cearenses.

Professor Almir Leal relembra como foi seu primeiro contato com o trabalho de Antônio Bezerra:

“Em 1993, durante uma visita ao Instituto Histórico do Ceará, guiado pela historiadora Valdelice Girão
e o professor Geraldo Nobre, ganhei uma reedição do livro Algumas Origens do Ceará.
Naquele momento, a professora Valdelice falou umacoisa que me marcou profundamente:
‘esse livro é o melhor livro de História do Ceará Colonial’.
E até hoje ainda releio esse livro, uma obra inesgotável’’.

Para comprovar a importância da obra, Almir lembra que Algumas Origens do Ceará foi publicado oficialmente pelo governo, com selo oficial do Estado.

Além de ultrapassar as divisas territoriais do Ceará, o trabalho de base e resgate de documentos oficiais realizado por Antônio Bezerra, principalmente sobre fatos relativos à história do Ceará, transpõe séculos e atualmente é fonte importante para a realização do projeto Humanidades Digitais, uma rede que pretende publicar as Sesmarias do Império Luso-brasileiro. O projeto tem a coordenação nacional da professora Carmen Margarida Alveal, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Professor Almir Leal, coordenador do projeto, no Ceará, explica que o trabalho de coleta e transcrição de documentos sobre as sesmarias doadas no Ceará, e organizados, por Antônio Bezerra, em quatorzes volumes, é a base de pesquisa para viabilizar o projeto Humanidades Digitais. “Hoje eu trabalho com História Colonial do Ceará e nosso grupo formado por estudantes, mestrandos, doutorandos está lendo esses quatorzes volumes e corrigindo a digitação na base Sesmarias do Império Luso-brasileiro – SILB. São cerca de 4 mil Sesmarias e o Ceará é o único estado que tem uma cobertura quase completa da doação de terras. Isso só comprova como Antônio Bezerra é atual e como o trabalho de base, de arquivista realizado por ele foi primoroso.”

Agradecimento:
Professor Almir Leal de Oliveira
Coordenador do Grupo de Pesquisa Ceará Colonial: economia, memória e sociedade (2003) do CNPq, Professor de Estudos Brasileiros do Center for Latin American Studies (Cadeira Joaquim Nabuco) da Universidade de Stanford (2010-2011) e professor do Departamento de História da UFC.