“Chego a pensar que embora a leitura seja uma fonte inesgotável de prazer, a garimpagem provoca um prazer diferente, às vezes superior ao outro. Quando se encontra uma obra procurada durante décadas, o coração bate mais forte (felizmente o livreiro antiquário não percebe esse batimento cardíaco…), ao passo que depois de adquirido o livro, já acomodado na estante, seu manuseio e leitura proporcionam prazer, mas a emoção propriamente dita deixa de existir ou não é a mesma.” José Mindlin*

José Ephim Mindlin tinha interesses muito diversificados. Atuou no campo cultural, na educação, economia, política (não partidária), ciência e empresarial. Nasceu em São Paulo, no dia 8 de setembro de 1914. Era filho do dentista Ephim Mindlin e de Fanny Mindlin, casal judeu nascido em Odessa, atual Ucrânia, que imigrou para o Brasil, em 1905. Do pai, herdou o gosto pela arte e cultura. Frequentou o Colégio Rio Branco e ainda adolescente trabalhou como redator no jornal O Estado de S. Paulo, ficando nessa função de 1930 a 1934. Experiencia considerada, por ele, em várias entrevistas, como extraordinária.

Em 1936 formou-se em direito pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, onde conheceu Guita Kauffmann, futura esposa e companheira de vida e de paixão pelos livros. Ela se especializou em restauro e encadernação recuperando milhares de volumes que o casal adquiriu ao logo da vida.

Nessa quarta-feira, 8 de setembro de 2021, José Mindlin completaria 107 anos e a Fundação Waldemar Alcântara (FWA) rende homenagem a esse atuante e apaixonado guardião de livros.

“O legado deixado por José Mindlin é da maior importância para a cultura nacional por formar e doar à Universidade de São Paulo um esplêndido acervo de livros raros sobre o Brasil Colônia, Império e República, além de livros e documentos que interessam à literatura universal. Essa coleção, hoje reunida, em prédio apropriado, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, é passível de ser consultada por qualquer pessoa, sobretudo pesquisadores que se interessem pela história do livro e a História do Brasil”;

Capa do livro “Memórias esparsas de uma biblioteca” publicada em 2004, do escritor e amigo Mindlin, faz parte do acervo da Biblioteca Labirinto

Declara o também bibliófilo Lúcio Alcântara que guarda na memória encontros com Mindlin e, na Biblioteca Labirinto, alguns livros do amigo: Memórias esparsas de uma biblioteca (2004); No Mundo dos livros (2009); Destaques da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (2013); Para a tão falada Biblioteca José e Guita Mindlin: dedicatórias (2013).

Depois de advogar por vários anos, Mindlin, em 1950, funda a empresa Metal Leve S/A, potência nacional no setor de peças para automóveis como pioneira em pesquisa e desenvolvimento tecnológico no segmento. Ele deixou a empresa em 1996, mas enquanto empresário foi um dos poucos a se opor ao regime militar, fato revelado pelo próprio em entrevista no documentário Cidadão Boilesen.

Antes de deixar a Metal Leve S/A, em 1975, aceitou o desafio de trabalhar como gestor público à frente da Secretaria de Cultura, Ciência e Tecnologia no governo Paulo Egydio. José Mindlin teve uma atuação exemplar como secretário. Estruturou a carreira de pesquisador acadêmico, equilibrou o orçamento, conteve a burocracia para apoio a projetos culturais externos e melhorou os vencimentos dos músicos do Estado. Entretanto desencantou-se quando setores radicais da direita militar deflagraram uma campanha feroz contra Vladimir Herzog, escolhido por Mindlin para dirigir o jornalismo da TV Cultura. O jornalista foi brutalmente assassinado nas instalações do DOI-CODI, no quartel-general do II Exército. O secretário renunciou ao cargo em sinal de protesto. Retomando a direção de sua empresa.

Ingressou em 20 de junho de 2006 na Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira n. 29. No longo discurso de posse, perpetuado no site da Academia , ele conta a que se deve seus gostos culturais, em especial pelos livros.

“Tendo tido o privilégio de crescer num ambiente cultural, meus pais e irmãos mais velhos lendo permanentemente, passei também a ler as obras chamadas ‘sérias’ depois das leituras infantis, começando com as Lendas e Narrativas, O Monge de Cister e O Bobo, de Alexandre Herculano, aos 12 anos de idade. Foi ele o primeiro autor que criou em mim o gosto pela literatura de ficção. Esta foi uma das vertentes de minhas leituras que continua viva até hoje. Duas outras vertentes são a História, principalmente a História do Brasil, e o gosto pelos autores clássicos que me levou à paixão pelo livro raro. São, pois, três vertentes que constituíram o fulcro da Biblioteca a que vim a formar através da vida. Curiosamente, esses interesses se definiram muito cedo, pela ficção literária aos doze anos de idade, pois na mesma ocasião li O Ateneu, de Raul Pompéia, e as duas outras aos 13 anos, puramente por acaso. O acaso teve, aliás, um papel extremamente importante em tudo e para tudo que me aconteceu na vida”.

O precoce e voraz leitor se notabilizou não apenas por sua paixão pela leitura desde criança, mas por se dedicar a montar uma das maiores bibliotecas do Brasil, a Biblioteca Mindlin. No mesmo discurso de posse da Academia Brasileira de Letras, relatou que aos 13 anos começou a frequentar os sebos de São Paulo, quando encontrou uma edição portuguesa do Discurso sobre a História Universal, de Bossuet, publicado em Coimbra, em 1740,

“data que me fascinou. Foi a semente da busca de livros raros, embora mais tarde tivesse aprendido que a data das edições é um elemento secundário em sua importância. Mas a semente foi Bossuet, que floresceu e cresceu muito além do que eu poderia ter imaginado”.

Desde então, reuniu expressivo conjunto de livros e manuscritos raros. Cerca de 17.000 títulos (40.000 volumes): obras de literatura brasileira (e portuguesa), relatos de viajantes, manuscritos históricos e literários (originais e provas tipográficas), periódicos, livros científicos e didáticos, iconografia (estampas e álbuns ilustrados) e livros de artistas (gravuras). Grande parte relacionada à história e a estudos sobre o país.

Fachada da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Em 2006 o casal Guita e Mindlin decide doar parte significativa de sua biblioteca à Universidade de São Paulo. A doação originou a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM), inaugurada dia 23 de marco de 2013. A Biblioteca faz parte da Pró-reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP e fica localizada no coração da Cidade Universitária, em edifício, com mais de 20 mil metros quadrados, construído especialmente para abrigar o acervo doado, uma das exigências de Mindlin à Universidade.

O acervo é composto por mais de 32 mil títulos, incluindo obras de literatura, relatos de viajantes, manuscritos históricos e literários, periódicos, livros científicos e didáticos, iconografia e livros de artistas. Dentre as obras raras que fazem parte do acervo, destacam-se a primeira edição de O Guarani, de José de Alencar (1857); o original de Vidas Secas, de Graciliano Ramos (1938); e a primeira edição de Marília de Dirceu, de Tomás Antonio Gonzaga (1810).

A iniciativa de Mindlin e Guita é um exemplo de generosidade, devolvendo a sociedade parte da riqueza acumulada, um exemplo raro que deveria inspirar outros empresários bem sucedidos. José Mindlin faleceu no domingo 28, de fevereiro de 2010, aos 95 anos.

 

NOTA.
Devido à pandemia provocada pela Covid-19, desde marco de 2020, a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) está fechada temporariamente para visitas guiadas individuais e em grupo, visitas a exposições, consultas ao acervo físico, bem como o uso das suas dependências, tais como salas de estudos, saguão e auditórios.
Convém lembrar que a BBM disponibiliza parte do acervo em sua Biblioteca Digital – BBM Digital (https://digital.bbm.usp.br).
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* (disponível em: https://www.academia.org.br/academicos/jose-mindlin/discurso-de-posse / Acesso em: 08.09.2021)